O mundo perdoado

Murilo Hildebrand de Abreu


"Tu és capaz de imaginar quão belos parecerão para ti aqueles a quem tiveres perdoado? Em nenhuma fantasia jamais viste nada tão belo. Nada do que vês aqui, dormindo ou acordado, chega perto de tamanha beleza. E coisa alguma valorizarás como essa, nem nada será tão precioso. Nada do que lembras, que tenha feito o teu coração cantar com alegria, jamais te trouxe sequer uma pequena parte da felicidade que ver isso vai te trazer. Pois verás o Filho de Deus." (Um Curso em Milagres)



Alado olhar esse que renasce seu dono em pássaro, em canto: o olhar de um prisioneiro – nós – que descobriu que as grades nunca existiram, e que nunca houve um carcereiro.

Houve só um susto, um engano: as grades eram apenas medo, pequenos e infinitamente frágeis ecos de um pesadelo de criança.

Como não havia grades, não havia prisioneiro.

Havia e sempre houve só pássaro, só canto. Pássaro-cântico do trinado de luz, incapaz do que não é eterno.

Reconhecido como risível, o medo dissolve-se em êxtase. O tempo – o sonho – evapora-se das nossas asas, levando consigo tudo o que não éramos. Suga-se, extinguindo-se conforme incendeia-se céu em nossa aorta: o agora. O agora – pulsação do infinito – verte-se em uma valsa luminescente, aurora-(bo)real que nos atravessa, silenciosa vazante revertendo-nos de sonho em realidade, aflorando-nos ninhos.

Passarêdos, revoamo-nos insuflados de céu.

O passado e o futuro submergem na preamar da luminosidade.

Já não há âncoras.

Nunca houve âncoras.

A claridão orvalha: carícia em pupilas canoras.

Fecundados pelo dorso do firmamento, brotamos. Âmago, amanhecemos.

Prenhes de alvoreceres, parimos passeriformes silêncios, florações do fogo, constelações de corolas incandescendentes.

O revir da vida: emanação resultante da dissuasão do sonho de que havia um eu e um outro; irmanação do Um obtida pela dessujeição ao impossível – à solidão.

Só infinitos somos: manancial de manjedouras, primeva primavera, renascedouro.

Serena: minam céus desse céu.

Ave, vertemos aves: cântaros.

Vestígios das aves evocados na visão: advento: Deus É.

É: Somos.

Ventania, ventania, ventania interior que nos dissolve em liberdade.

Que nos devolve à liberdade.

Voo, voo, Semente que semeia a Semente: Unicidade.

O barco-íris ...





(continua – texto em construção)